
Arte by Meg Lopes
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As Mulheres da Década de 1920: As Ancestrais da liberdade que respiramos hoje
A década de 1920 marcou uma virada decisiva para as mulheres em muitas partes do mundo.
Ainda que cercadas por muros de preconceito, violência institucionalizada e papéis sociais limitantes, elas se ergueram, com coragem, inteligência e beleza indomável, e contribuiram para o futuro da humanidade.
As transformações sociais do pós-Primeira Guerra Mundial abriram brechas no patriarcado.
Com os homens nas frentes de batalha, as mulheres precisaram ocupar postos de trabalho que antes lhes eram proibidos. Elas trabalharam em hospitais, fábricas e escritórios como telefonistas, jornalistas, enfermeiras, professoras, operárias e até mesmo motoristas de bonde. Mas, com o fim da guerra, muitas foram pressionadas a voltar para dentro de casa, ao “dever doméstico”, como se sua autonomia fosse temporária. Enquanto muitas, com a perda de seus maridos na guerra, tiveram que continuar em pesada carga de trabalho para conseguirem sustentar seus filhos.
Apesar da crescente inserção no mercado de trabalho, as mulheres eram vistas como cidadãs de segunda classe.
As mulheres que se mantinham no mercado de trabalho, recebiam salários mais baixos, enfrentavam o constante assédio impune e eram mantidas sob leis que as infantilizavam.
Algumas mulheres eram contratadas para “embelezar” o ambiente de trabalho. E o pior é que todo mundo podia dizer isso abertamente e tudo bem.
As mulheres não tinham a mínima voz e quando reclamavam por terem sido molestadas, a culpa sempre recaíam sobre elas. Muitas eram desrespeitadas pelos cliente, pelos patrões e pelos outros funcionários, principalmente os mais antigos.
Em 2025 ainda estamos passando por isso em nossos ambientes de trabalho.
Em diversos países, incluindo o Brasil, o marido era considerado o “chefe da sociedade conjugal”, podendo impedir sua esposa de trabalhar, estudar ou sequer sair de casa sem autorização.
A violência doméstica era institucionalizada e legalizada sob o disfarce do “poder marital“, e bater em uma mulher era, muitas vezes, considerado um “assunto de família”, invisível à justiça e naturalizado pela sociedade.
Quem nunca ouviu a frase: “Em briga de marido e mulher, não mete a colher.” Só que nas brigas era, geralmente, a mulher que estava apanhando.
Mas mesmo nesse cenário hostil, surgiram mulheres que se recusaram a viver curvadas.
Marie Curie, que recebeu seu segundo Prêmio Nobel em 1911, influenciou muitas mulheres na Europa e com ainda mais força nos anos 1920, inspirando outras a romper os muros dos laboratórios.
No Brasil, Bertha Lutz, bióloga e ativista, fundou a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino e tornou-se uma das maiores vozes do sufrágio feminino.
As mulheres começaram a ocupar salas de aula como professoras e alunas, desafiando o mito de que “pensar era tarefa masculina”.
As universidades ainda eram hostis, mas algumas cederam espaço, a muito custo, a essas pioneiras.
Os anos 1920 foram palco da efervescência do Modernismo.
Tarsila do Amaral, com sua paleta audaciosa e original, abriu caminho nas artes visuais.
Escritoras como Virginia Woolf lançaram obras imortais, questionando a estrutura da sociedade patriarcal e a ausência da mulher na história e na literatura.
Mulheres como Josephine Baker brilharam e também confrontaram os preconceitos raciais e sexuais, no teatro, no cinema e na dança.
Leitura Recomendada:

Livro: Um teto todo seu – Virgínia Wolf
Neste ensaio, repleto de referências históricas, Virginia Woolf analisa a participação da mulher na literatura, mencionando consagradas autoras de século 19, como Jane Austen, e mostra o quanto as limitações financeiras e sociais impedem a expressão intelectual feminina.
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Na política, embora ainda impedidas de votar em muitos países (no Brasil, o direito só viria em 1932), mulheres se organizaram.
Elas protestaram, fundaram jornais, sindicatos e movimentos sufragistas.
Em alguns lugares, como nos Estados Unidos e na Inglaterra, o voto feminino foi conquistado graças à luta incansável dessas pioneiras.
Paulina Luisi, em 1908, foi a primeira mulher uruguaia a licenciar-se em medicina, tornando-se uma figura central do feminismo latino-americano. Foi uma das fundadoras do Partido Socialista del Uruguay.
Essas mulheres, tão diferentes em suas trajetórias, tinham algo em comum: a recusa em aceitar a submissão como destino. Pagaram caro. Foram ridicularizadas, perseguidas, silenciadas… Mas não desistiram.
Você conhece alguma dessas Mulheres Brasileiras empoderadas nos anos 20?
- Bertha Lutz – Ciência, Política, Feminismo (1894-1976)
- Tarsila do Amaral _ Artes Visuais (1886-1973)
- Anita Malfatti – Pintura (1889-1964)
- Nísia Floresta – Educação, Escrita, Feminismo ( 1810-1885) (influência pré-1920)
- Maria Lacerda de Moura – Educação, Anarquismo (1887-1945)
- Laudelina de Campos Melo – Trabalho doméstico, sindicalismo (1904-1991)
- Antonieta de Barros – Política e Ensino (1901-1952)
- Pagu (Patrícia Galvão) – Literatura e Jornalismo (1910-1962)
- Chiquinha Gonzaga – Música (1847-1935)
- Rachel de Queiroz – Literatura (1910-2003)
- Bidú Sayão – Cantora Lírica ( 1902-1999)
- Margarida Lopes de Almeida – Literatura (1896-1983)
- Carmen Portinho – Engenharia (1903-2001)
- Antonieta de Barros – Política (1901-1952)
- Guiomar Novaes – Música ( 1894-1979)
- Auta de Souza – Poetiza (1876-1901)
- Almerinda Farias Gama – Advogada/Sindicalista (1899-1999)
- Deolinda Daltro – Professora /Indigenista (1860-1935)
O Bastão Está em Nossas Mãos
Que ninguém se engane: o chão em que pisamos hoje foi aberto à força, com as mãos e as vozes de mulheres que ousaram existir onde o mundo dizia “não”.
Cada direito, cada liberdade, cada pequena conquista que hoje temos carrega o suor, as lágrimas e o sangue de nossas ancestrais. Elas enfrentaram o medo, o silêncio e o preconceito para que pudéssemos caminhar um pouco mais livres.
Essas mulheres dos anos 1920 — e tantas outras, anônimas ou esquecidas — não nasceram em tempos fáceis. Mas isso nunca as impediu. Elas não esperaram o mundo mudar para depois agir. Elas mudaram o mundo porque se recusaram a aceitar a submissão como destino.
Agora, o bastão está em nossas mãos. Não como um troféu, mas como um compromisso. O compromisso de continuar. O compromisso de não retroceder. O compromisso de abrir portas para as que virão, assim como as que vieram antes abriram para nós.
Que possamos nos olhar no espelho e enxergar nelas o reflexo da nossa coragem. Que, diante das injustiças, das tentativas de silenciamento e das novas formas de opressão, lembremos: não estamos sós. Somos herdeiras de séculos de resistência. Nós somos a ponta final desses milhares de anos de histórias não-contada de nossas Ancestrais.
O caminho é longo. A estrada é árdua. Mas ela já foi aberta. Cabe a nós ampliá-la.
Que caminhemos com orgulho, com força e com memória.
Que nunca deixemos o bastão cair.
Porque o futuro é nosso. E ele carrega o nome das que vieram antes.
Sigamos. Por elas. Por nós. Por todas.
Hoje, olhamos para elas como nossas ancestrais espirituais. Foram elas que, com mãos firmes e corações indomáveis, escreveram as primeiras linhas do que chamamos de liberdade.
Essas mulheres e as mulheres antes delas semearam as primeiras sementes da igualdade, mesmo que nunca tenham colhido os frutos em vida.
A luta foi delas e agora a Luta é nossa.
Ainda estamos em luta.
Mulheres apoiem outras Mulheres!
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