Mística, médica e desobediente: a mulher que sacudiu a Idade Média.

Você sabe quem foi Hildegard von Bingen?

Arte by Meg Lopes

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Se eu te dissesse que, no século XII, existiu uma mulher que entendia de medicina, música, poesia, fazia profecias e ainda lutava contra o preconceito de gênero, numa época em que mulheres eram queimadas na fogueira, acusadas de bruxaria, você acreditaria?

Pois bem, essa mulher existiu. E o nome dela é Hildegard von Bingen.

Foi uma mulher que se recusou a viver de joelhos diante de um sistema que silenciava as mulheres.

Foi rebelde, santa, médica, poeta, visionária, musicista, escritora, filósofa, botânica, astrônoma, curandeira.

Desde pequena, já mostrava que não ficaria calada, apenas rezando e obedecendo ordens.

Hildegard começou a ter “visões” ainda muito jovem, com apenas 3 anos de idade.

Devido a essas “visões divinas”, aos 8 anos foi prometida ao convento, tendo, então, sido educada no Claustro Beneditino de Disibodenberg, um mosteiro na Alemanha.

Colocar filhas em conventos era uma prática comum nessa época.

Essa prática era usada por algumas famílias para cumprir promessas, punir mulheres ou escondê-las da sociedade, em casos de gravidez “fora de época” ou fora do casamento, por exemplo.

Servia também para “dar um jeito” em algumas mulheres “doidas”, que insistiam em se expressar além dos limites impostos pela época.

Os motivos nem precisavam ser muito convincentes.

Mas Hildegard tomou posse desse destino, conseguindo se tornar grande na batalha pela igualdade e pelo fim do preconceito. Fez dessa bandeira uma plataforma de luta, revolucionando sua época e fazendo história até os dias de hoje.

Aos 15 anos, Hildegard começou a usar o hábito beneditino e, a partir daí, seguiu definitivamente a vida religiosa.

No convento, recebeu a instrução de Jutta von Sponheim, uma nobre alemã religiosa que se tornou anacoreta (denominação dada aos religiosos que viviam em reclusão, longe do convívio social).

Jutta foi a mentora de Hildegard. Ensinou-a a ler, escrever, cantar os salmos, tocar instrumentos e a rezar — tornando-se uma figura fundamental em sua formação espiritual e intelectual.

Com a morte de Jutta, Hildegard assumiu o posto de Madre Superiora do convento, em 1136.

Leitura Recomendada :

Livro: O mínimo sobre a medicina de Santa Hildegarda

O interesse por Santa Hildegarda e sua abordagem pioneira da medicina voltou a cativar leitores nos últimos tempos, sobretudo porque seu sistema de cura busca integrar corpo, mente e espírito. A saúde resulta do equilíbrio desses elementos; a doença, de seu desequilíbrio.

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Ela era médica, monja, profetisa, botânica, compositora e escritora. Pense numa mulher incrível!

Hildegard não foi mais uma das muitas mulheres silenciadas, deixadas em conventos, como muitos achavam que seria. Ela foi uma visionária e não se limitou apenas à vida de serviço à Igreja.

Hildegard transcendeu!

Ela queria fazer sua voz ecoar. Queria furar a bolha. Queria que seus trabalhos fossem considerados e reconhecidos tanto quanto os de qualquer homem.

Escreveu Hildegard:

“Embora seja uma mulher frágil, falo não por mim, mas pela voz do Deus vivo, que escolhe os pequenos para confundir os grandes.”

Hildegard von Bingen

Em suas inúmeras cartas, inclusive aos Papas, ela pedia que a Igreja voltasse os olhos aos mais necessitados, às mulheres e ao preconceito de gênero.

Hildegard via o feminino como portador de sabedoria e poder criativo. Suas visões ressaltavam o papel espiritual e transformador das mulheres, ligando o feminino à própria estrutura da vida.

Hildegard, a “bruxa” que assustou homens de masculinidade frágil

Homens com masculinidade frágil existem há muito tempo. A prova disso são os homens da Idade Média, que achavam que as mulheres, além de inferiores, eram culpadas por tudo de ruim que acontecia. “A culpa era da Eva, que mordeu o fruto proibido.”

A mentalidade machista da época tentou empurrar Hildegard para o lugar que costumava ser reservado às mulheres: o de Mulher Silenciada.

Mas ela recusou-se a ocupar esse espaço.

Tendo nascido em uma família de nobres, ela usou de sua influência para questionar as autoridades da época.

Mantinha relações cordiais, por meio de cartas, com as maiores e mais poderosas figuras de seu tempo.

Escreveu mais de 300 cartas a papas, imperadores, arcebispos e nobres.

Nessas cartas, dava conselhos espirituais e políticos, cobrava respeito ao seu trabalho, igualdade às mulheres, denunciava abusos, injustiças e preconceito.

E escreveu ao Papa:

“Tu, pastor dos pastores, foste colocado no trono de Pedro para governar com justiça. Mas se a espada da palavra não for empunhada, o povo se perderá.”

E ainda:

“A Igreja deve ser purificada. Seus ministros estão obscurecidos, cheios de impurezas e negligência. A luz divina se afasta deles como de um espelho embaçado.”

Mesmo com todo o protecionismo masculino, onde tudo era decidido por homens, ela se impôs como pensadora e líder espiritual.

Uma grande revolucionária. Uma grande estrategista.

Além disso, fundou dois conventos e liderou dezenas de freiras, mostrando que as mulheres podiam ter a mesma capacidade que os homens.

Leitura Recomendada :

O “Liber Vitae Meritorum” é uma obra complexa de Santa Hildegarda.
Além de confrontar vícios e virtudes, o livro explora a jornada espiritual do homem em direção à salvação, destacando a batalha contra as seduções do mal e a vitória final de Cristo.

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Uma voz feminina no século XII

Numa época em que se queimavam, enforcavam e decapitavam pessoas em praça pública, Hildegard se levantou. Falava sobre a saúde da mulher, sua conexão com a natureza e a espiritualidade inclusiva, desafiando a ideia de que só os homens podiam ter acesso ao conhecimento.

Foi uma das primeiras a descrever a importância das emoções na saúde e na doença.

Além das visões proféticas que, segundo ela, vinham diretamente do Divino, escreveu tratados de medicina e botânica, com abordagens que até hoje são estudadas, ressaltando a importância do equilíbrio entre corpo, mente e espírito.

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Em suas obras, valorizava as plantas medicinais e os remédios naturais, reforçando que o cuidado com o corpo era tão importante quanto o cuidado com a alma.

Considerava a Terra como um organismo vivo. 

Sua visão holística da natureza antecipava ideias que hoje chamamos de ecologia espiritual ou ecoespiritualidade.

Entre seus livros mais importantes estão:
  • Scivias (Conhece os Caminhos) – relato de 26 visões místicas com explicações teológicas e desenhos. Uma cosmologia espiritual sobre a criação, o ser humano e a salvação.
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  • Causae et Curae (Causas e Curas) – obra médica baseada na fisiologia, psicologia e espiritualidade humanas, descrevendo doenças, diagnósticos e tratamentos naturais.
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  • Physica (Livro da Medicina Simples) – compêndio com descrições de mais de 500 plantas, minerais e animais, incluindo seus usos medicinais.
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  • Liber Divinorum Operum (Livro das Obras Divinas) – considerada sua obra-prima: uma cosmologia teológica, filosófica e antropológica com enfoque na interligação entre o ser humano e o cosmos.
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  • Liber Vitae Meritorum (Livro dos Méritos da Vida) – uma espécie de manual moral sobre o combate entre virtudes e vícios.
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Leitura Recomendada:

Livro: Scivias

Ao contrário dos historiadores modernos, Hildegard não percebia o século XII como um período de fervor espiritual e renovação, mas como uma época na qual as Escrituras eram negligenciadas, o clero era “morno e indolente” e o povo cristão mal-informado.

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E ela não parou por aí…

Não bastasse ser médica, profetisa, visionária e escritora, Hildegard ainda foi compositora. Suas músicas foram reconhecidas por sua originalidade, beleza e intensidade emocional.

As composições de Hildegard são consideradas algumas das mais inovadoras da Idade Média. Ela rompeu com os padrões rígidos do canto gregoriano tradicional, criando melodias amplas, com uma riqueza melódica que se destacava dos demais compositores da época.

Com linhas vocais fluidas e expressivas, suas composições contavam com louvores à Virgem Maria, louvores aos santos, salmos e o poder do divino feminino.

Leitura Recomendada:

Physica é uma enciclopédia sobre as características e a utilidade dos elementos mais comuns e abundantes na Criação.
A obra compõe-se de nove partes, que descrevem diversas criaturas e substâncias vegetais e minerais presentes na natureza, indicando seu uso terapêutico para a prevenção e cura de males físicos, mentais e espirituais do ser humano.

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Ela dizia que recebia inspiração direta de Deus.

E, de fato, quando ouvimos suas músicas, parece mesmo que estamos em contato com o Divino.

“Ó homem, ouve e escreve o que vês e ouves. E escreve não segundo o coração humano, mas segundo o querer de Deus.”

Hildegard von Bingen

Entre suas principais obras musicais estão:

  • Symphonia armonie celestium revelationum – (Sinfonia da Harmonia das Revelações Celestiais) Uma coleção de 77 peças litúrgicas e um drama litúrgico, o Ordo Virtutum.
  • Ave generosa – uma homenagem à Virgem Maria.
  • O virtus Sapientiae – celebra a força da Sabedoria.
  • Spiritus Sanctus vivificans vita – hino ao Espírito Santo.
  • Ordo Virtutum” (ano 1.151) – (A Ordem das Virtudes) – é um drama litúrgico, representando a primeira obra de moralidade musical conhecida, composta por uma mulher. Esta obra é composta em latim, em  forma de drama musical, com 82 melodias, onde os personagens são as Virtudes, a Alma e o Diabo.Nela, as Virtudes são personagens cantadas por mulheres, enquanto o Diabo só fala (não canta), pois, segundo Hildegard, o Diabo havia perdido sua voz celestial para canta

Links de algumas músicas:

Fonte: Youtube

Reconhecimento tardio da santa rebelde

Mesmo com todas as suas contribuições, Hildegard de Bingen só foi reconhecida oficialmente como santa em 2012, pelo Papa Bento XVI.

No mesmo ano em que foi proclamada Doutora da Igreja Católica, tornando-se uma das poucas mulheres a receber esse título, ao lado de Teresa de Ávila, Catarina de Sena e Teresa de Lisieux.

Esse título é dado a pessoas cujos escritos e ensinamentos são considerados especialmente importantes para a doutrina da fé católica.

Hildegard é símbolo de resistência, sabedoria e coragem.

Hildegard é inspiração.

Hildegard deixou mais do que história, ela nos deixou um legado. 

Ela mostrou que mulheres têm voz, visão e poder de transformar o mundo,  mesmo quando o mundo tenta silenciá-las.

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Hoje, a vida e a obra de Hildegard von Bingen seguem inspirando mulheres a ocuparem espaços de poder, a desafiar o patriarcado, a transformar o mundo com suas ideias  e, principalmente, a não aceitarem o silêncio como destino.

Então, o que você acha de nos lembrarmos dessa mulher sempre que o mundo tentar nos silenciar? 

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